terça-feira, 15 de outubro de 2019

CADAHORAUMA - FIM



Estou encerrando minhas postagens em CADAHORAUMA. Gostaria de agradecer aos pouquíssimos companheiros que ficaram comigo até o fim e, também agradecer aqueles que talvez por falta de melhor opção, leu pelo menos um dos meus textos. Essa brincadeira começou com uma PEDRA, passou por muitas ESTRADAS e terminou  com A SÉTIMA EXTINÇÃO, uma tirada catastrófica. Durante 5 anos, apresentei alguns "causos"inspirados em várias fontes dentre as quais o Google é a maior delas. Mas fui perdendo inspiração e cheguei a apresentar alguns trabalhos um tanto insossos que levaram aos meus poucos seguidores a desistirem de mim. Se bem que não levo isso muito a sério pois escrevo para mim mesmo e posso garantir com grande  folga que sou o maior leitor dos meus próprios textos.Estou parando mas o arquivo continua aberto e assim ficará até que o sistema permita.
  Obrigado : www.cadahorauma blogspot.com.br

domingo, 13 de outubro de 2019

A SÉTIMA EXTINÇÃO



"O senhor não vai morrer... eles vão matar o senhor".

                                                                      Chaves


"O FIM ESTÁ PRÓXIMO"

Desde que nasci que tenho ouvido essa expressão. Como a terra tem quase cinco bilhões de anos, se dissermos que tudo vai acabar  em digamos 700 anos, então o fim está realmente próximo. Bom, temos muito o que fazer ainda, mas essa geração não está fazendo nada, só especulando e, a contagem regressiva já começou. O que pode acontecer em 700 anos já que estamos devastando o planeta como uma praga de gafanhotos? Com o aquecimento constante do planeta, o nível dos oceanos vai subir  175 metros o que significa que metade do globo estará submerso. O mundo ficara reduzido em   apenas dois continentes. Praticamente todas as ilhas desaparecerão, ficando apenas alguns picos de rochas apontando para o céu, pedindo socorro. Com o fim do degelo, as águas dos oceanos se estabilizam e nessas alturas a maioria dos seres humanos estarão vivendo em habitações flutuantes, em comunidades sob redomas de vidro ultra temperado pois nem o alumínio resistirá as altas temperaturas. Com a alta temperatura, a evaporação será muito alta, o que ocasionará precipitação frequente (muita chuva) o que felizmente  estabilizará o abastecimento de água potável.
Então não haverá extinção da raça humana? Ainda não pois esse processo é muito lento e a  população vai evoluindo e se adaptando as mudanças. No entanto...
Bem, a população humana que hoje está na casa dos oito bilhões terá que ser reduzida à cerca de um terço disso. Calma aí, ninguém será  eliminado sumariamente. Esse processo é lento. Haverá leis rígidas sobre natalidade. Por decreto, os humanos serão obrigados a entrar no programa de esterilização do governo. Para continuar a espécie, serão sorteados uma parcela  de casais que 
poderão ter um único filho.  Os computadores farão um balanço anual entre nascimento e mortes e estes sorteios poderão sofrer alterações para cima ou para baixo para manter o equilíbrio. Por causa da evaporação exagerada e a constante precipitação de água pura, os oceanos entrarão num processo de dessalinização que levará ao desaparecimento das espécies marinhas e isso é claro que será uma premonição para uma SÉTIMA EXTINÇÃO. Praticamente não haverá mais empresas privadas. Todo mundo será funcionário publico e sem remuneração. Todos terão um cartão de auto sustentação, com limites correspondentes a categoria ou função de cada um. Os "desempregados" ou inválidos receberão um cartão "PRO BONO" com o limite mínimo (salário mínimo) e não haverá mais aposentadoria (nadas a ver com Bolsonaro).  As fazendas de criação e produção de alimentos serão subsidiadas pelo governo e toda a produção será de propriedade do governo que distribuirá de  forma justa. Não haverá lucro uma vez que não existirá mais dinheiro a circular.E de onde virão os recursos para a gestão governamental? Virão do intercambio entre as nações. Um produz isso, outro aquilo e a balança comercial continuará flutuando. Continuará a existir as organizações mundiais para resolver os problemas divergentes. A  ONU determinar uma única constituição para todas as nações e somente as crenças religiosas serão livres. Os crimes serão reduzidos a quase zero uma vez que não haverá mais dinheiro, bens pessoais e comércio que induz ao furtos e roubos. O lazer e o turismo serão desestimulados uma vez que a curiosidade humana deixará de ser motivada, ficando as viagens apenas a serviço por força das funções, e isso com os cartões de embarques do governo. Não haverá estímulo ao consumo portanto a industria se limitará ao destino básico da população.  Lembrem que a população está vivendo um um processo de sub existência portanto não fará sentido qualquer tipo de ostentação. Roupas e calçados serão distribuídos e serão padronizados diferenciados apenas por sexo.
O esporte prevalecerá mas não haverá mais campeonatos mundiais para evitar deslocamentos desnecessários e dispendiosos. As crianças serão patrimônio da humanidade Todo adulto verá qualquer uma delas como seu filho (a) mesmo sem qualquer vínculo hereditário. 
E aqui, ficamos nós desfrutando deste maravilhoso mundo enquanto aguardamos a SÉTIMA EXTINÇÃO.

                              "Segure seu filho no colo, abrace seus pais enquanto estão aqui..."

                                TREM BALA - musica de Ana Vilela.

Graças a Deus, esse texto é uma ficção . SERÁ? 

domingo, 22 de setembro de 2019

360º


Hoje dei uma olhada em volta de mim. Nossa como é bonito o meu entorno. Sou grato por ter nascido em Santa Justa (MG)  e ter pertencido a uma grande família de dez membros dos quais ainda somos sete. Os três que se foram permanecem entre nós em saudosa memória. Grato também por ter constituído uma segunda família de cinco membros e por sentarmos juntos na mesa e dar graças pelo
 pão recebido. Nesse giro de 360º em torno de mim, sou grato por reconhecer Deus em todas as coisas até nos caminhos de formigas que desvio para não pisar em cima. Grato por poder olhar em todas as direções, consciente de que a TERRA é realmente redonda e portanto os horizontes serem infinitos.Grato por  ter tido a liberdade de tomar todas as decisões certas ou até erradas, sem nenhuma vez ter sido subjugado nem mesmo induzido. Olhando em volta de mim, vejo a fartura de qualidade de vida que vale a pena viver: o vento, a chuva, o sol, as plantas, os animais, até mesmo os insetos que tem tão pouco tempo de vida mas que é suficiente para procriar e fazer o mundo seguir adiante. Sou grato por ser um volume ocupando um espaço que é só meu. Mesmo quando levo um empurrão, o meu espaço vai comigo. No giro de 360º vejo os caminhos por onde andei, tudo que fiz e tudo que ainda posso fazer. Já fui estudante, escriturário, cobrador, vendedor, montador, ambulante. Já vendi móveis, roupas de cama, pregos, limões, doces, sorvetes, temperos. Isso na vida real, pois na fantasia, já fui aviador, comerciante de peles, guitarrista, guerrilheiro, soldado mor, saltimbanco, ator, autor, patrulheiro e viajante. Como viajante de verdade, já estive em SERRA NEGRA, ÁGUAS DE LINDOIA, MONTE SIÃO, JACUTINGA, OURO PRETO, RIO DE JANEIRO, BELO HORIZONTE, FORTALEZA, BRASILIA (DF), APARECIDA E É CLARO EM SÃO PAULO. Em fantasia, já percorri o mundo inteiro. Trabalhei tanto na vida que não tive tempo de ficar rico ou será que esta é a minha riqueza? Creio que sim pois se fosse rico não tinha tido tempo de ler mais de 100 livros na vida, não teria tempo de ter visto uns mil filmes. Não teria tido tempo de ter ido ver o senhor Silvio Santos e ter ficado cara a cara com o "Homem Sorriso". Não teria tido tempo de assistir ao vivo um show de Roberto Carlos e ter visto de pertinho o rei da Jovem Guada. Feliz por ter nascido no ano em que terminou a SEGUNDA GUERRA MUNDIAL  e no começo da PRIMAVERA. Estou fazendo esse giro de 360° porque hoje é meu aniversario de 74 anos e sou grato por isso. Vou continuar a observar o meu entorno por ainda muitos anos, se Deus assim o permitir.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

GUAJURÍS - FIM


O MENTIROSO


Fim? Acaba assim mesmo, sem pé nem cabeça? Para onde foi a aldeia? para onde foram  os índios?
Para começar, não existe na verdade uma tribo GUAJURÍS, Existe sim os GUAGIROS, nativos da Colômbia e Venezuela. Quando um contador de histórias não quer passar por mentiroso, ele cria um personagem que passa a ser "real" já que foi criado. Se não existe os GUAJURÍS,  então devemos admitir que o senhor Valec passou por delírios terríveis ao ponto de pensar que vivenciou tudo isso?
Que viveu  entre mortos por três longos meses? Após o suposto SACRIFÍCIO, ele se vê, sozinho numa  clareira natural na floresta, vestindo seus trapos originais e faminto...
Bem, eu não inventei esta história, meu personagem a contou. Se você conseguiu chegar até o fim desta narrativa, muito obrigado e não o culpo por não acreditar nesta história "cabeluda". Pode, e deve escrever o seu nome no ABAIXO ASSINADO, que coloca o pobre e infortunado senhor Valec como um tremendo MENTIROSO.


terça-feira, 7 de maio de 2019

GUAJURÍS


CAP. - VI - O SACRIFÍCIO

Quem não pode com o inimigo, junta-se a ele. Esse é um velho conceito de sobrevivência em guerras. Ou você morre como herói ou se entrega como covarde e aguarda o veredicto do conselho de guerra, no caso o conselho dos aniões. Esses veredictos nunca são favoráveis aos vencidos, mas no momento você permanece vivo e a  possibilidade de uma evasão é sempre uma esperança. No meu caso, já considerava uma vantagem pelo fato de ser o único vivo. Além do mais, a promessa do cacique de que ninguém me faria mal na aldeia era também um fato positivo. Me lembro que minha mãe sempre dizia que que eu não temesse os mortos pois o perigo está é entre os vivos. Bom,  se minha mãe estivesse aqui, viva e rodeada de almas penadas, talvez pensasse diferente. Mas eu estava de fato, muito bem tratado entre os mortos. O cacique era mesmo um bom anfitrião. Os criados, já não mais disfarçavam na hora de aparecer ou desaparecer. Um dia quase esbarrei na índia que saia do meu quarto com uma braçada de lençóis. Notei que ela aparecia sempre vestida com a mesma roupa de sempre. Parece que se trocara para uma ocasião especial em tempos remotos e nunca mais precisara trocar de roupá. Eu circulava livremente pela aldeia e me sentia muito bem junto aquela gente hospitaleira. Muitas vezes a aldeia estava deserta, por ser a hora do "descanso" e outras vezes eu  quase desbarrava em mulheres carregando coisas, quando elas surgiam de repente, vindo do além. Sempre que passava diante do "altar"sentia que meus pelos se levantavam. Tinha medo, é  claro, mas aquela rocha negra parecia tão inofensiva  que eu começava a acreditar que tudo aquilo era somente folclore. Nada de mal poderia vir daquela rocha. Aquilo era só uma pedra. 
O cacique se fechou novamente. Não consegui extrair mais nada da sua história. Não pude saber como ele se transformara em cacique da tribo, sendo branco, nem como ele teria morrido, se morrido, uma vez que ele se afirmava estar bem vivo, apesar de ter 300 anos. Um dia vi o aviãozinho aterrissar no aeroporto. Corri para lá curioso. Chegando perto, vi a porta do avião abrir mas não vi ninguém desembarcar. Piloto fantasma, que surpresa. Fiquei observando, daí a pouco o piloto se materializou do nada, descarregando caixas. Ofereci ajuda e ele aceitou de bom grado como se fossemos velhos amigos. Outros vieram ajudar e levamos tudo para a bodega. Um abastecimento normal como  em qualquer sociedade. De que eu poderia ter medo? Na hora do jantar, resolvi abordar mais uma vez na esperança de adquirir mais conhecimento dos mortos.
- Senhor Januário, se todos estão mortos, como podem comprar coisas em Manaus?
- O senhor insiste em dizer que estamos mortos, meus servidores vão a Manaus, visitam armazéns, compram coisas, como podem estar mortos?
- Então porque eu não posso embarcar naquele avião e ir embora?
- Pode, o senhor quer ir? Lembra que lhe falei que se sair da aldeia o senhor não existe? Então embarque, vá, o senhor é quem sabe. "Eu é quem sei", pois sim, Eu estava na mão daquele feiticeiro e ele diz que eu é quem sei..
- Vou ficar.
E fiquei, me entreguei  aos caprichos do cacique e ofereci em trabalhar na horta, para matar o tempo. Sendo o único totalmente vivo, poderia trabalhar em tempo integral e passar mais tempo fora de casa, longe dos fantasmas.  Já estava acostumado aos desaparecimentos dos índios e não me importava se eles estivessem vivos ou não. A noite, confabulava com o cacique mas não extraía mais segredo nenhum. Notei que ele andava um pouco triste, meio chateado, mas não dizia porque. Um dia ele suspirou e disse de repente:
- Estou cansado de viver.
- Como?
- Nada, vamos desligar o gerador e dormir
.Estava trabalhando na horta e ouvi grande barulho na aldeia. Uma gritaria danada, um barulho infernal. Vi rolos de fumaça negra e pensei. 
- Meu Deus, aldeia está pegando fogo.
Corri para lá e quando entrei no centro da aldeia uma multidão estava reunida em torno da pedra. 
Era tanta gente que eu não conseguia chegar perto. Subi num oca e me me agarrei como pude para observar o que estava acontecendo. Havia dez fogueiras em torno da pedra e em uma especie de palanque estavam três velhos índios seminus com grandes cocares na cabeça e estandartes nas mãos. Eles batiam os estandartes e curvados como velhos que eram, gritavam uma palavra indecifrável.
 O povo dançava uma dança frenética, acompanhado o batuque dos estandartes e gritavam:
- "GUAJURÍS, GUAJURÍS, GUAJURIS, 
As fogueiras crepitavam e  por entre as línguas das labaredas eu verifiquei que havia uma figura humana sobre a plataforma. Era próximo as 18 horas e através da fumaça negra, agora meio que violeta, por causa do por do sol, eu pude ver o  rosto do infeliz sobre a pedra. Ele se virou para mim e sorriu. Era o cacique. Ele não se debatia, nem tão pouco estava amarrado. Parecia feliz por estar  ali sendo cosido vivo. As chamas não o atingiam diretamente, mas o calor provocado por aquelas 10 fogueiras enormes em torno da pedra, se não o queimava diretamente, deveria cozinhá-lo  lentamente.
Pensei, Meu Deus, esse homem é realmente vivo, senão não teria se oferecido para o sacrifício. Queria fazer alguma coisa  mas não tinha como passar por aquela multidão e mesmo que conseguisse não teria como me aproximar do altar, passando por aquele fogaréu todo.
E os índios gritavam GUAJURÍS, GUAJURÍS, GUAJURÍS, executando evoluções frenéticas em êxtase. 
De repente eles começaram a girar em torno da pedra.... não, era a pedra que estava girando lentamente e acelerando. GUAJURIS, GUAJURIS, GUAJURÍS, O altar acelerou ainda mais e começou a se elevar, saindo do interior da terra. Era grande, como uma cunha sendo extraída e subindo lentamente como um foguete sendo lançado em CABO CANAVERAL. Quando a grande cunha finalmente se libertou da terra  como uma rolha, já tinha uns 30 metros de comprimento e finalmente subiu para o espaço. Era um imenso cilindro antes preto, agora vermelho, como se as  fogueiras o tivesse aquecido ao ponto de combustão. Houve um baque, uma especie de estouro mudo e a choupana em que eu estava escarafunchado se desmoronou. Eu caí em cima de uma moitas macias. Não havia mais choupana, não havia mais nada, não havia mais aldeia. Só uma grande clareira natural no meio da floresta. Havia sim um lindo por do sol atrás das montanhas. Me levantei, me apalpando, para ver se estava vivo. Estava. Só que vestia meus antigos trajes andrajos, estava sujo, cabeludo e faminto. Andei meio que aos tropeções e desbarrei com meu velho bornal de couro, com as  cordas e o cutelo dentro.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

GUAJURÍS


CAP. - V - A PEDRA

Já fazia dois dias que eu estava na aldeia e pouco sabia sobre aquele povo. O cacique relutava em ir direto aos fatos, sempre evasivo mas deixando pontas soltas de fios que eu procurava emendar e tentar o meu próprio entendimento. De tanto eu cutucar ele finalmente abriu um pouco e começou a falar sobre o marco da propriedade Era uma rocha circular que sobressaia dois metros acima da superfície, formando uma plataforma que em tempos remotos fora usada como altar de sacrifícios.
- Sacrifícios? Já houve sacrifício humano ali?
- Oh! Sim e muitos, creio. 
- Em nome de quem, eram essas oferendas? 
- Ao Deus Guajurí, Supremo criador do mundo e do  povo Guajurís .
- E porque pararam os sacrifícios?
- Creio que por falta de matéria prima - o cacique rio da própria piada. 
- E o senhor, como entra nesta história, sendo um homem branco?
- Eu cheguei aqui em 1727...
- 17... ? Mas nós estamos em 2009, como o senhor...
O cacique fez um gesto com os ombros, como que confirmando as minhas suspeitas. Eu já estava meio que desconfiado com os vai e vem dos índios, quero dizer, desaparecimentos, mas agora diante de um homem de 300 anos... um calafrio percorreu minha espinha. 
- Senhor Januario, me diga a verdade, essa gente está toda morta? Inclusive o Senhor? Eu também estou morto e sou apena mais um habitante dessa Zumbilândia?
- O senhor não está morto, e nós também não. Estamos bem vivos a nossa maneira.
- senhor, muito obrigado pela hospitalidade, eu não estou mais interessado em nada por aqui, vou pegar minhas coisas e voltar para o pântano...
- Não é tão simples assim. Somente os anciões poderão decidir o seu destino. E eles estão descansando e o descanso deles dura um ano. O próximo retorno é em julho, ou seja daqui a 3 meses.
- Mas tem muitos velhinhos na  aldeia.
-  Tô falando dos verdadeiros anciões, os que compõe o conselho.
- E porque  eu  não posso simplesmente fugir?
- Porque o senhor só existe aqui nessa aldeia,  se voltar para a floresta deixará de existir e como fugirá se não existe?
 - Então em vezes de hospede, sou um prisioneiro?
- Não é prisioneiro, é um homem livre, pode circular livremente pela aldeia e ninguém lhe fará mal algum. 
- Não pode convocar um conselho de emergência?
- Podemos sim, mas só através de um sacrifício, o senhor se habilita?
Foi aí que me toquei que sendo a única pessoa viva por aquelas bandas seria também único habilitado ao sacrifício. Já até imaginei qual seria o veredicto do conselho de anciões. Precisava fazer alguma coisa mas no momento só conseguia pensar na PEDRA.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

GUAJURÍS


CAP. - CP. IV - O JANTAR

 Eram exatamente l8 horas quando eu fui convidado a sentar em outra cadeira de balanço ao lado do meu anfitrião. Como disse, o sol se punha atrás das montanhas e era impossível não admirar aquele lindo espetáculo. Na frente da casa, os dois velhos índios desapareceram como mágica, da mesma forma que os dois moços que me escoltaram pela floresta também o fizeram, isto é, desaparecimentos instantâneos, sem explicação. E essas ocorrências se verificavam exatamente de duas em duas horas. Eu estava  com um relógio e vinha acompanhando esta particularidade. E lá embaixo na aldeia, o barulho cessou justo nesse momento. Achei estranho aquele silencio repentino como se alguém tivesse usado um controle remoto e desligado tudo lá embaixo. Minhas divagações duraram poucos segundos pois nesse momento o meu anfitrião falou:
- Seja bem vindo a minha casa senhor...
- Obrigado, Meu nome é Valec e  estava meio perdido e fui alertado que fiz uma casa em suas terras. Eu não sabia, nessa imensidão de floresta não há cercas e eu não poderia saber que estava invadindo.
- De fato não há cerca mas o senhor tentou se estabelecer em minha propriedade e os meus servidores tiveram que interferir, queira me desculpar. Meu nome é Januário, Por forças de circunstancias, me transformei em CACIQUE JANU, chefe do povo Guajurís. Nossa propriedade compreende trinta quilômetros de de circunferência, contando a partir de um marco natural existente no centro da aldeia e  está registrada em cartório de Manaus.
- Registrada? Nesse caso trata-se de um povo  vinculado à civilização, falam o português claro e não são hostis, como pude comprovar.
- Não são hostis e não vão lhe fazer mal algum. Vamos ter oportunidade de confabular por muito tempo mas no momento creio que é minha obrigação ser hospitaleiro e vejo que o senhor está precisando de cuidados.  Vamos entrar, o senhor precisa de um bom banho. Nesse momento estamos sozinhos, os criados estão descansando. As 20 horas eles retornam e o jantar será servido. 
Passamos para dentro da casa e o cacique me mostrou o banheiro. Já estava bem equipado com toalhas limpas, tesoura e navalha na bancada e roupas limpas penduradas em cabides. A primeira coisa que fiz foi aparar o cabelo da melhor forma possível e fazer a barba. Depois tomei uma bela ducha quente, coisa que não fazia ha muito tempo. Quando entrei na sala, o cacique me esperava com dois copos e com dois dedos de uma cachaça amarelinha. 
- Nossa que transformação, o senhor é outra figura e minhas roupas lhe caíram muito bem, temos o mesmo porte físico. 
Tomei um gole da cachaça e me senti reanimado e como estava muito curioso a respeito de tudo fui direto ao assunto. 
- Obrigado por me acolher senhor Januário, eu estava mesmo precisando de cuidados. Acho que iria acabar morrendo da floresta se o senhor não tivesse me acolhido. Mas estou  morrendo de curiosidade por tudo isso. O senhor é um homem branco e mesmo assim é chefe de uma tribo indígena...
- Eu entendo como o senhor se sente, está um pouco confuso em relação ao nosso povo, garanto que lhe contarei o que que posso, mas tem muita coisa que depende do conselho de anciões e aí não depende somente de mim. 
- Certo, e eu não quero me intrometer nos seus assuntos, caso lhe venha prejudicar em alguma coisas, talvez seria melhor o senhor providenciar a minha volta para a civilização...
- Civilização? Então acha que não somos civilizados?
- Eu não quis dizer isso, quero dizer voltar para Manaus, notei que tem um campo de pouso na aldeia.
- Sim, temos um aeroporto e mantemos contato com Manaus, Belém e até São Paulo. Mas não podemos transportar passageiros em nenhum sentido. Para todos os efeitos essa é uma aldeia isolada do mundo. Meus contatos com as cidades são  com gente nossa. Para todos os efeitos O povo Guajurís não existe...
- Não existe? Então...
- Olhe, vamos fazer o seguinte, o senhor deve estar com fome, talvez queira beliscar alguma coisa antes do jantar, vou pegar alguma coisa na cozinha. 
O cacique se levantou contornou a mesa, ao passar por um espelho na parede eu não vi... quero dizer alguma coisa me intrigou mas pensei ser apenas imaginação minha. Ele retornou com um bom pedaço de carneiro assado e serviu mais uma pinguinha. O naco delicioso de carne assada, serviu de pretexto para mudar de assunto.  O cacique levou a conversa para assuntos mais doméstico e eu senti que não queria  falar sobre as minhas suspeitas de algum mistério. Então ele começou a descrever sua própria casa, as instalações da aldeia, o aeroporto, a bodega,o gerador,   os currais, a horta até que o relógio bateu 20 horas. 
 - Pronto, o jantar será servido agora, os criados retornaram. 
 - Retornaram? Onde?
 - Atrás do senhor. 
Eu me virei e quase desbarrei em uma índia que vinha se aproximando com uma bandeja. Ela sorriu para mim, depositou a bandeja de comida sobre a mesa e deu passagem a outro "pele vermelha" que se  aproximava com pratos e talheres. Ouvi o burburinho de mulheres na cozinha e barulho de mobília. Lá embaixo na  aldeia o alvoroço também recomeçou. Não me contive.
- Desculpe senhor Janu, mas o senhor pode me dizer de onde surgiram esses funcionários assim tão de repente, eu quase desbarrei nessa moça que não estava aqui a um segundo atras. 
- Senhor Valec, vamos nos servir. Para estas pessoas o jantar é quase um cerimonial, eu já fui repreendido pela cozinheira por ter ido mexer em suas panelas. Por favor aprecie o seu JANTAR.