terça-feira, 2 de abril de 2019

GUAJURÍS - CONTINUAÇÃO


CAP.  I - O NAUFRÁGIO

Meu nome é Valec. Não sou cientista, pesquisador, erudito, professor nem tão pouco escritor. Por forças de circunstâncias, me transformei em palestrante e aqui acolá, alcunhado de MENTIROSO, por conta de que não tenho como comprovar a veracidade da minha história. Ao longo da vida, a gente passa por graças e infortúnios que nos apresentam em momentos de isolamento e solidão, sem o testemunho de terceiros ou apresentação de registros comprobatórios legalmente válidos. O que exponho nesse relato, aconteceu de fato e peço veementemente a quem desse tomar conhecimento, que divulgue, repasse e dê fé pois se juramento tivesse força de lei eu não precisaria implorar credibilidade, bastaria jurar, o que não faço pois o mundo já está cheio de falsos juramentos. Mesmo dispondo de apontamentos feitos de próprio punho, ainda tenho que implorar que os aceitem como válidos, que não foram inventados, forjados.
Andava eu pela floresta amazônica,  não  como pesquisador, aventureiro, turista nem desbravador de mistérios da floresta, nem como caçador de aminais exóticos ou espécies raras da flora ou d fauna, apenas como homem perdido vítima de um naufrágio de um barco de viagem pelo rio Solimões. Me é dispensável descrever o motivo de tal viagem visto que um cidadão é livre para ir e vir nesse país, e somente dar satisfação, caso lhe aprouver. Nosso barco naufragou em uma remota curva do rio e partes dos destroços vieram a encalhar entre alagadiços num sitio perdido do mundo.Dos outros passageiros e tripulantes, nunca tive conhecimento de qual destino tiveram, se sobreviveram, se morreram, mesmo depois, quando voltei à civilização e tentei averiguar. Era um barco clandestino e embarcamos também em um porto clandestino, de forma não haver na capitania dos portos de Manaus nem mesmo registro de tal acidente. Isso não vem ao caso e não a motivo para alterar ou interferir nos fatos que aconteceram comigo desde então. Pois bem, levei quase dois dias para sair do alagadiço, encontrar chão mais firme para pisar, ainda que nessas paragens tudo estava sempre molhado. Já imaginando a minha penúria, antes de abandonar os destroços do barco, procurei encontrar alguma coisa de alguma utilidade e somente encontrei um  bornal velho de couro contendo saquinhos de um pó branco, os quais atirei ao rio, uma vez que não era da minha índole traficar ou consumir tal material. Encontrei também uns pedaços de corda e um cutelo  velho enferrujado. , objetos que me pareceram de grande utilidade para um homem perdido na floresta. Mas também, se por acaso tivesse encontrado um sortimento maior de coisas, não teria como transportar por aquele alagadiço trançado  de juncos e de cipós. Enfiei as cordas e o cutelo no bornal, pendurei no pescoço e dei início a minha fuga, supondo que o terreno firme estivesse mais próximo. Foi aí que realmente percebi que estava de fato perdido. Era bem fundo o que eu achava que fosse a margem do rio e aquele alagadiço penetrava floresta adentro. Mal conseguia pisar em uma lama mole, ou tudo aquilo seria somente lama? Não afundava justamente por ser muito trançado de juncos e cipós. E como era floresta mesmo, tinha as árvores onde eu pudesse me apoiar e seguir em frente. Seguir em em frente, em termos pois as vezes achava que não saia do lugar pois tudo em volta  parecia igual e já estava escurecendo.  Caiu a noite e segui em frente, ou para direita, para esquerda e possivelmente para traz em virtude da desorientação.Quando notei que o dia estava raiando, senti pisar mais firme, apressei o passo e saí no "seco".Deitei de costas ali mesmo na lama pois estava exausto e  precisava comer. Pensei, onde será que se acha um bom café por aqui? Avistei alguns arbustos floridos e abelha sugando o pólen. Ora, se abelhas podem comer, acho que também posso.  Comi algumas flores que não tinham gosto de nada, o que sugeria segurança alimentar. Depois de escapar de um  naufrágio, conseguir sair de um alagadiço daqueles, achar flores para comer, cheguei a conclusão  que minha sorte não era das piores. Salvo ser atacado por índios ou feras, poderia continuar a sobreviver. Água é o que não faltava.
Durante três dias, comi flores, ervas, sementes e raízes, alimentos que se não me mataram, alguns provaram desarranjos intestinais desagradáveis mas que no final me mantinham alimentado na medida do possível. Aos poucos, fui selecionando aquela dieta vegetariana de maneira que o organismo foi aceitando aqueles alimentos sumários. No sexto dia (sabia que era o sexto), porque ainda era possível memorizar, deparei com algo humano, um osso. Soube que era humano, porque tendo trabalhado certo tempo em um hospital, tinha vagamente uma noção da anatomia humana. Era uma tíbia. Pensei, alguém morreu por aqui já faz um bom tempo. 
Daqui para frente, não me preocupei mais em contar os dias, apenas fazia uma estimativa. Para que se preocupar se era sexta, domingo ou quarta? O único compromisso que eu tinha era em me manter vivo e  chegar nalgum reduto habitado, mesmo que por índios. Acreditava que poderia me entender com nativos. O perigo seria topar com onças ou qualquer animal feroz que gostasse de um bom petisco de carne humana. Mas graças a Deus não topei com nenhum e cheguei a conclusão que as feras preferissem sítios mais secos, do que toda aquela umidade. Para dormir, tinha que cortar muitos galhos para improvisar uma cama razoável naquele chão molhado. Certo dia, supondo já ter se passado uns três meses, finalmente encontrei terreno realmente seco. Havia saído oficialmente do pântano. Pensei, aqui deve morar o perigo, feras, índios e talvez até falta de água. Mas não seria justo se minha sorte fosse me abandonar agora. Para continuar andando, teria que me abastecer de água e a única vasilha que dispunha era o  bornal de couro. A mata raleou um pouco e eu pude avistar montanhas a distancia. Bom, floresta, montanhas, clima tropical, chuvas, então, deve haver muitos riachos e, água não deve faltar, vou em frente. De fato, encontrei um regato de boa correnteza, água limpíssima. Eu vinha bebendo água de charcos todo esse tempo e encontrar toda aquela água corrente era como encontrar o paraíso. Julguei que era momento de fazer uma casa. Trabalhei quatro dias cortando varas e limpando um terreno e em uma semana estava com uma cabana bastante razoável. Certa feita, ao lavrar uma madeira, o cutelo escorregou e atingiu uma pedra que soltou faíscas. Mais que depressa juntei folhas secas e gravetos junto a pedra e martelei incansavelmente até que "eureca", descobri o fogo. Daí para frente me senti dono do mundo: casa, água fresca e fogo. Assei rãs, ovos de pássaros e com algumas frutas para acompanhar minha dieta melhorou consideravelmente. Encontrei uma loca para guardar os tições para preservar o fogo pois aquela primeira chama me pareceu um 
acaso. Não seria possível ser preciso, mas por causa do tamanho do meu cabelo e barba, creio que poderia estimar em três meses o tempo que passara desde o NAUFRÁGIO. Já não me considerava um homem perdido na floresta e sim acolhido por ela tanto que a decisão de fazer um assentamento à beira daquele regato seria uma forma de resignação e aceitação. Estaria eu me transformando em um outro ROBINSON CRUSOÉ, TARZAN OU JIN DAS SELVAS?



---------- CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM-----------


- "Sua casa está em terras do cacique, não pode ficar"...
















terça-feira, 26 de março de 2019

GUAJURÍS



NOTA DO AUTOR

Esta história é verdadeira. Pelo menos assim garante o meu narrador que no caso é verdadeiríssimo, pois o conheci pessoalmente em uma de suas palestras. Fictício aqui, é o codinome do então narrador, que assim tivemos que proceder, para que nem ele nem eu viéssemos  algum dia a ter que dar satisfação a quem quer que venha a se sentir ofendido ou prejudicado (ele próprio, parente,  ou protegido seu), caso algum fato ou circunstancia aqui relatados, venha a coincidir mesmo que remotamente, com fatos  ou relatos relacionados a sua pessoa e ou. Eu, particularmente, não tenho crítico e muito provavelmente nem mesmo leitor que venha desta história tomar conhecimento.Os fatos aqui relatados são de responsabilidades do Senhor Valec que garante ter vivenciado esses acontecimentos e gentilmente me permitiu apresentá-los a minha maneira. Que assim seja.




Suzano 01 de março de 2019

 CAP.  I -  O NAUFRÁGIO.

Meu nome é Valec. Não sou cientista, pesquisador, erudito, professor nem tão pouco escritor. por força de circunstâncias, me transformei em palestrante e aqui acolá alcunhado de MENTIROSO...

(CONTINUA NA PROX. POSTAGEM).


sábado, 23 de fevereiro de 2019

O OVO DA DISCÓRDIA


A maneira de quebrar ovos transformou-se em motivo de discórdia em um grande império, dividindo-o em dois partidos de oposição que, em consequência, dividiu-se também a grande nação em dois impérios distintos que viveram em guerra entre si por tempos eternos.
Deu-se da seguinte forma: havia um antigo decreto que estabelecia regras para quebrar ovos o qual determinava o seguinte, "o ovo deve ser quebrado a partir da ponta mais fina.Por séculos essa foi a maneira segura de quebrar ovos que se tornou hábito, a despeito da lei.
Tempos depois, o filho de um grande nobre da corte sofreu um acidente ao quebrar um ovo, ferindo-se com a casca, pegando uma infecção e acabou vindo a óbito. Esse nobre que era membro influente nos meios políticos, entrou com um processo de revogação da lei "quebra ovos" e propondo que os ovos passassem a ser quebrados pela ponta mais grossa. Foi assim que nasceu o PARTIDO PONTA GROSSENSE (PPG) em oposição ao PARTIDO PONTA FINENSE (PPF). Essa discórdia levou as vias de fato rachando ao meio a opinião publica. Os ponta grossenses fugiram em massa para outra ilha, criando um novo império que tornou-se o inimigo nº 1 da nação original.
Para coibir a demanda de novos insubordinados, o imperador do primeiro império decretou emenda à lei determinando que a partir de então, os ovos passassem a ser quebrados de maneira conveniente. Em honra ao  amado monarca, os súditos entenderam que a "maneira conveniente" era conforme o costume, ou seja quebrar os ovos pela ponta fina...

Texto baseado em AS VIAGENS DE GULLIVER.

Nota - projetos semelhantes chegam todo dia em nosso congresso, é por isso que temos 36 partidos políticos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O POÇO



Vamos dar um tempo em minhas postagens pesquisadas e relatar um fato real tal como em COLA TUBO E CONEXÕES.  No final da página o leitor poderá imaginar sua própria nota de rodapé :"O! mineirinho burro". Isto aconteceu na década de 1980. Não se pode desculpar como sendo um caso de "marinheiro de primeira viagem" uma vez que os marinheiros rebem ensinamentos e instruções e, as próprias pessoas leigas recebem algum tipo de ensinamento e as lições que a vida oferece. Mas esse sujeito que certa vez bateu com a cabeça na parede do Rotary Club de Brasilia de Minas (esta vou contar depois), parece que ficou com alguma sequela, as massas cinzentas do cérebro devem ter sofrido um curto circuito.
Vamos aos fatos: a gente já tinha um terreno comprado e pago ao longo de 10 anos. O lugar era lá na fronteira entre o mato e a grota. Era não, é, pois o bairro de PIUM no município de Itaquaquecetuba,  apesar de algum progresso ao longo de trinta anos, continua lá na fronteira entre o mato e a grota. Pois bem, eu queria fazer uma casinha lá, mas não havia água encanada, era necessário furar um poço. Eu e o mestre sabidão recrutado por recomenda fomos fazer as medições. Contamos em passadas até o ponto X de forma que o poço ficasse no quintal da futura casa. Feito o trabalho, lacramos a boca do poço pois tivemos que esperar mais um ano até a chegada de novos recursos que por sinal nem vieram. Tudo bem, vamos meter as caras e fazer assim mesmo. Tomei dinheiro emprestado em AGIOTAS, vendi as férias, dei o cano em algumas prestações e mãos a obra. Haviam me dito que fazer casa "fiado" é um risco  que se pode correr pois na pior das hipóteses, você terá a propriedade para vender e quitar a dívida. Além do mais, agiota se paga assim: pega de um para pagar o outro depois pega do outro para pagar o "um". Deixe os juros subir até o recurso final (leia-se juízo final). Epa, estou fugindo da história do poço... estávamos na obra, paredes  pela metade aí, apareceu uma mulher e sapecou: "moço, sua casa está no lugar certo mas o poço está no terreno do meu cunhado"
- ?
Explicando: eram duas ruas que formava um "L". Meu terreno era na Rua Mambuca e o terreno do "c unhado", ficava nos fundos, com frente  para a outra rua. Foi onde o poço foi parar.
Arranjos feito, etc e tal, o "cunhado" deixou usar a água, ficando claro que quando ele fosse murar o terreno, seria ele por justo direito, o verdadeiro dono do poço, sem ressarcimento futuro. No final, eu vendi a casinha por 8 mil cruzados, paguei os agiotas, cuja dívida chegava quase a isso e a vaca foi pro brejo. Agora amigos, não esqueçam da nota imaginária deste rodapé. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

EL CUCO


Lendas urbanas existem em todas as nações do mundo. Histórias de aparições, fantasmas e relatos assustadores de origens antiguíssimas, de autoria desconhecida mas que os antepassados contavam  como sendo fatos verdadeiros e servem de ingredientes para livros, filmes e representações teatrais em geral. A maioria destas lendas deram origens a personagens folclóricos que variam  de acordo com os costumes das regiões mas no fundo parece ter o mesmo objetivo que é provocar o medo. Crianças desobedientes e malcriadas são sempre "ameaçadas" com o "homem do saco", "bicho papão" , "cuca" e muitos bichos inventados pelas lendas. As crianças assustam menos se a gente disser que o  "urso" vai pegar, ou que a "onça" vai pegar porque esses animais existem de fato mas vivem muito longe, lá nas selvas enquanto que os bichos lendários podem estar dentro do armário ou debaixo da cama. Entre os países latinos, o personagem mais popular é o COCO ( el coco... el cuco, no Brasil a cuca)
O COCO, teve origem na GALISA (GALÍCIA, uma região da Espanha na Península Ibérica). Consta que era um fantasma com cabeça de  cabaça com três furos ( olhos e boca) e pegava crianças desobedientes...
A palavra COCO, significava cabeça, daí vem o termo cocoruto quando se refere ao topo da cabeça humana. O coco (no caso da fruta, verifica-se que a casca tem três furos que se pode associar aos olhos e boca do monstro).
Se a gente for muito fundo na observação, vamos lembrar que os americanos fazem esse fantasma com cabeça de abóbora nas suas festas de Halloween.
No México, lá pelos tempos da colonização, aconteceu um crime onde um menino foi levado dentro de um saco e encontrado semi-devorado. Como nunca foi encontrado o criminoso, a culpa foi de quem? El CUCO, ou o "o homem do saco".
No Brasil, o O CUCO chegou também, através dos antigos colonizadores e ganhou uma versão feminina, A CUCA, mas foi em 1921 que Monteiro Lobato personalizou a nossa CUCA como sendo uma velha horrível com cabeça de jacaré ao escrever o livro O SACI. Agora não assusta mais pois em o SÍTIO DO PICA- PAU AMARELO, a cuca não mete medo nem em Pedrinho e Narizinho que são amigos do Saci que por acaso vem ser primo da cuca.
Agora cantemos uma musica de ninar: dorme nenen que a cuca vem pegar, papai tá roça e mamãe vai trabalhar. Se o bebê soubesse de todas essas histórias de terror ele jamais dormiria. Mas dorme porque associa a musiquinha a vós doce e protetora da mamãe e não porque se sente  ameaçado. Se tiver crianças lendo esta história é melhor ser obediente se não a CUCA, O HOMEM DO SACO OU O BOI DA CARA PRETA, vai pegar...kkkkk

segunda-feira, 4 de junho de 2018

APELIDOS



Hoje estive recordando com saudade alguns apelidos de família, mas não vou mencioná-los nessa página publica,  em respeito aos apelidados. salvo o apelido mais antigo que tornou-se a marca registrada da nossa família: ZÉ PRETIM. Então, como esse texto denomina-se APELIDOS, nada mais justo que transcrever aqui parte da obra do poeta cordelista Francis Gomes ao qual tive a grata satisfação de conhecer em um SARAU CULTURAL:

APELIDOS
( I )

"Eu não sei quem inventou
A peste do apelido
Se foi um cabra safado
Ou até mesmo atrevido, 
Para aprontar tal coisa
E ainda achar divertido
                                                                     
                                                                      ( II )

                                                                       A verdade é que existe
                                                                       Apelido de todo jeito
                                                                       Alguns até engraçados
                                                                       Outros puro preconceito,
                                                                       Mas tem aqueles que cai
 ( III)                                                              Como luva pro sujeito.

O apelido muitas vezes
Tem haver com a pessoa, 
O lugar onde nasceu
Se ela é ruim ou se é boa, 
Se trabalha ou se gosta
De viver andando atoa.
                                                                      ( IV )
                                                                      Com o seu jeito de ser
                                                                      Se é bonita ou feia, 
                                                                      Se é alta ou se é baixa
                                                                      Se é magra ou meio cheia, 
                                                                      Se fala pouco ou gosta
                                                                      De falar da vida alheia.
 ( VII )                                     
                                                                    
Visitando uma cidade
Eu fiquei meio perdido
Não encontrei o endereço
Do nome desconhecido,
lá todos se conheciam
Por meio de apelido.
                                                                    ( VIII )
                                                                 
                                                                     Mas quando fui explicando
                                                                     Como era o sujeito
                                                                     Um gritou: - sei quem é, 
                                                                     Tá falando do prefeito,
                                                                     Casado com a baleia
( IX )                                                             E é pai do esqueleto.

Perguntei qual o seu nome?
Ele disse: é bacurau,
Este aqui é o ferrugem
E aquele é catatau,
E os dois que estão sentados
Vira lata e Zé Mingau.
                                                                    ( X )
                                                                      
                                                                     Rapaz eu não sabia
                                                                     Que mané era prefeito,
                                                                     Me fale como foi isso
                                                                     Me explique isso direito, 
                                                                     Como ele conseguiu
( XI )                                                            Votos pra ser eleito?

Bacurau disse: - seu moço
O senhor tá enganado,
Prefeito é o nome dele
Aquilo é um coitado,
Não sai do bar do Salsicha
Bebendo com o deputado
                                                                    ( XII )

                                                                     O prefeito é o seu Soneca
                                                                     Casou com dona Preguiça,
                                                                     Tem um filho e uma filha
                                                                     A Tartaruga e o Linguiça, 
                                                                     O pai dele já morreu
(XIII)                                                             Só ficou dona Carniça

Perguntei seu Bacurau
Não me leve por maldade,
Peço que o senhor me fale
Com toda sinceridade,
Como é que se chama
O padre desta cidade?
                                                                    ( XIV )

                                                                    Ele falou:- é um santo
                                                                    Tem uma obra perfeita,
                                                                    Deus abençoe esse homem
                                                                    O santo padre Mula Preta
                                                                    E também seu sacristão
( XVII )                                                       Cigarrinho do capeta.

Vagabundo
é meu irmão                               
É o sexto da família,
Tem também o Passo lento
 Leseira e Agonia
E minha irmã Cafetina
Casada com Putaria.
                                                                 ( XVIII)

                                                                  Putaria é gente boa
                                                                  Mas vive na bebedeira,
                                                                  Filho de dona Sebosa
                                                                  E do Râ de Bananeira
                                                                  Irmão de Jô fanta uva
 (XXII)                                                      E Neguinha Trepadeira

Jumento é meu primo
Filho de tia Caveira,
Casado com Jurubeba
Irmã gêmea de Rameira
Que morreu ano pasado
Trepando na goiabeira.
                 
                                                                  (XXVI)

                                                                  Teve o Bil e Pantufa
                                                                  Bodinho e Robozão,
                                                                  Sete bóia era mais alto
                                                                  Quinder ovo quase anão,
                                                                  Coruja, Zeca Urubu
( XXXIV)                                                  Pintinho, Pato e Chicão.

Saí daquele lugar
Como quem pisando em ovo
Não quis saber mais de nada
Da cidade nem do povo,
E se depender de mim
Nunca mais volto de Novo."

Salve Francis Gomes, Cabeça Chata,  com muita massa cinzenta dentro.



                                                                       
                                                               
        
                                                                   






















sábado, 21 de abril de 2018

A PARADA



 Stephen King possivelmente escreveria esse conto se eu já não o tivesse feito. Pois sim, continue sonhando em imitar o grande escritor do Maine. Paciência, por aqui também acontece coisas estranhas porque nós somos estranhos, o mundo é estranho.
Não sei porque cargas d'água e resolvi pegar um ônibus para CAFUNDÓ DO JUDAS, um maldito lugar que nem consta no mapa. Mas de certa forma valeu a pena, pelo menos pude descobri um dos melhores lugares do planeta para não ir.
Eramos 13 pessoas naquele ônibus, contando com o motorista. Esse possivelmente seria o único que teria um motivo justo para fazer a viagem, uma vez que aquela era a linha 471-Y e a empresa lhe garantira estabilidade no emprego se assumisse definitivamente a linha 471-Y. Três passageiros também eram obrigados a ir para CAFUNDÓ porque estavam voltando pra casa. Duas irmãs iam em missão religiosa o que eu tomei como penitência. Um casal de negros com seu filho alegavam que estavam a procura de terras baratas para comprar. Havia também um caixeiro viajante, um homossexual todo arrumadinho com um pírsen no nariz e uma senhora com cara de advogada. Numa viagem assim, com poucos participantes, a gente acaba se interagindo uns com os outros. O homossexual estava fugindo do seu parceiro, indo para qualquer lugar. Os três habitantes de CAFUNDÓ realmente não tinham outro lugar para ir. O caixeiro viajante certamente estava num daqueles dias de maus negócios. O casal de negros sonhavam com um pedaço de terra para seu assentamento próprio mesmo que fosse nos CAFUNDÓS. As duas freiras, bem deixa pra lá, são coisas da fé. A mulher com cara de advogada não deixou transparecer um motivo razoável para a viagem, possivelmente uma aventureira como eu.
O ônibus sacolejava por uma estrada de terra subindo e descendo colinas escarpadas numa reta sem fim. A vegetação seca era uma espécie de cabelo ruim numa cabeça que há tempos não passava por um cabeleireiro. Montículos de cupins ladeavam a estrada dos dois lados. Se havia algum tipo de vidas naquelas paragens deviriam ser seres rastejantes socados em locas sob a terra seca. Até os cupins, parece que haviam sido extintos ou abandonado suas casas. Finalmente, depois de horas, surgiu um pequeno sinal de civilização: passamos por um mata-burro e algo verde despontou no horizonte em frente. Passamos por um brejo seco que a ultima chuva fez crescer umas moitas de cana que agora amarelavam de novo ao sol esturricante. Uma vaca mugiu atrás de uma cerca e eu abri a janela para ver aquele tipo de VIDA, além de nós dentro do ônibus
- Caramba, parece que estamos chegando em algum lugar - falou o caixeiro viajante esticando o pescoço para frente.
De fato, lá estava, uma "cidade", ou seja, um ajuntamento de umas oitos casas velhas, um pé de manga, um patio de terra batida e uma bodega com o sugestivo nome de ESPERANÇA que não passava de uma pocilga com o reboco descascando. O motorista parou na frente da bodega,  puxou o freio de mão que deu um estalo e levantou de um salto para dar o anuncio antes que alguém se mexesse do lugar.
- Atenção, esta parada é de 10 minutos. Tempo suficiente para esticar as pernas e comprar a farofa na bodega. A privada é uma só, tanto pra OME como pra MUIÉ. Acho bom vocês decidirem quem está mais necessitado porque não dá tempo de ir todo mundo. Nem pensem em fazer o numero dois  porque a empresa não espera. Na semana passada uma MUIÉ foi deixada para trás, o marido ficou resmungando e os filhos abriram o berreiro. Não pude fazer nada, avisei que não dava tempo.
O caixeiro viajante se levantou e falou
- Fique tranquilo seu motorista, nós não vamos desobedecer as normas da  empresa. Eu assumo o controle por aqui - e olhando  para os passageiros falou?
- Alguém precisa ir ao banheiro? Tem alguém apertado? Levante a mão.
Ninguém levantou a mão.
- Viu seu motorista, tá tudo tranquilo, ninguém vai atrapalhar...
- Mamãe, eu preciso cag...
- Vixe, o menino precisa fazer um numero dois.
- Tudo bem, criança é criança, o menino pode fazer no patio atras do ônibus.
O homossexual levantou o dedinho delicado
- Seu motorista, posso ir também atrás do ônibus? Eu estou apertada...
- Tudo bem, tu também é uma criança.
O negro se levantou.
- Minha esposa precisa ir ao banheiro  e não é coisa para se fazer atrás de ônibus.
-Mas o que é isso? Neste instante ninguém levantou a mão agora são três apertados?
- Desculpe seu motorista, eu não estava com vontade mas essa falação toda me deixou nervosa.
- Tudo bem, a senhora pode ir ao banheiro mas cuidado com o tempo.
A "advogada" se levantou e limpou a garganta.
- Seu motorista, o senhor disse que a parada é de 10 minutos, mas já faz mais de 3 minutos que estão nessa falação toda. O senhor está descontando esse tempo  no tempo de parada?
- É claro, agora vocês tem pouco mais de 6 minutos.
Todos se levantaram de um salto e os "apertados" fora os primeiros a pular fora. Eu entrei na bodega, o dono sorriu com um dente de ouro meio torto e limpou o balcão com o pano sujo. Olhei temeroso para as marmitas de farofas empilhadas do lado e perguntei?
- Qual é o MENU de hoje?
- Como??????
O que tem nessas marmitas?
- Ah! Sim, é farofa de codornas, eu mesmo cacei.
- É mesmo? E porque o cesto lá fora tá cheio de penas de urubu?
- Não, seu moço, são  penas de codornas, estão pretas porque a MUIÉ jogou borra de café por cima.
- Pois é, pois é - falou a esposa de lá da cozinha.
Somente  os três "habitantes" compraram as marmitas a 3 paus cada. Perguntei ao Dente de Ouro como chamava aquele lugar e ele falou orgulhoso que ali era A BAIXA DA ÉGUA e que lá mais na frente havia um cruzamento que para a esquerda ia para A CAIXA PREGO  e para direita levaria o viajante para OS QUINTOS DOS INFERNO, em frente, para CAFUNDÓ que era o nosso destino.
- Por acaso o FIM DO MUNDO também fica por essas bandas?
- Uai! Eu ouvi falar que o FIM DO MUNDO é lá mesmo das bandas donde o sinhô tá vindo, pois é por lá que as pessoas tem medo uma das outras, vivem em casas cercadas por grades.E é lá que prendem PRESIDENTES , é lá que se ganha muito dinheiro mas o dinheiro nunca dá. Lá o povo sempre gasta o que não tem pois usam uma cartão de prástico para pagar no outro mês e no outro mês e no outro mês e no outro mês...
A chegada do ônibus na BAIXADA DA ÉGUA, constituiu em um grande acontecimento pois em poucos minutos um ajuntamento se formou em volta do pátio, alguns pedintes maltrapilhos e dois meninos vendendo mexericas. A maioria  dos passageiros compraram mexericas para o almoço pois ninguém se aventurou nas "codornas" do Dente de Ouro. As freiras não quisera nada porque estavam jejuando em nome de Cristo. Eu também elevei meus pensamentos para Cristo, ao imaginar o que me esperava NOS CAFUNDÓS DO JUDAS.